Hegel e a fé travestida de metafísica
Se Auguste Comte trilhou o caminho paradoxal do cientificismo para uma nova metafísica, Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) representou, desde seus primórdios em Stuttgart até seu último dia em Berlim, a mais pura e radical expressão do pensamento metafísico ocidental. Diferente de Comte, que renegou sua própria metafísica inicial, Hegel foi metafísico do começo ao fim e até os ossos, um titã da especulação que erigiu um sistema onde a própria realidade é concebida como o autodesdobramento de um princípio racional e divino – o Espírito Absoluto (Geist). Sua filosofia não se contentava em explicar partes do real; ambicionava nada menos que explicar o Todo, demonstrando como a história, a natureza, a arte, a religião e o Estado são manifestações necessárias e progressivas dessa Ideia absoluta em seu processo de autoconhecimento. Como ele próprio afirmou, "a Razão governa o mundo e tem, consequentemente, governado a sua história" (GARDINER, p. 4). Esta não é uma metafísica tímida; é uma metafísica totalizante, imperial.
A genialidade – e para alguns, a desonestidade – hegeliana reside em sua terminologia. Hegel não usava livremente a palavra "Deus"; preferia conceitos como "Espírito Absoluto", "Ideia" ou "Razão". No entanto, uma leitura atenta deixa claro que isso foi, nas palavras do historiador da filosofia Terry Pinkard, "uma tentativa de repaginar a teologia cristã em termos filosóficos" (PINKARD, 2000, p. 228). O que é o Espírito, senão Deus filosoficamente travestido? O que é a dialética – o processo pelo qual uma tese gera sua antítese e ambas são superadas em uma síntese superior –, senão a narrativa da autorrealização de Deus no mundo? Hegel não eliminou Deus; ele o tornou imanente à história, transformando-a em uma teodiceia, uma justificação dos caminhos divinos. "A filosofia nos conduz a entender que o mundo real é como devia ser – que o verdadeiramente bom – a divina razão universal – não é mera abstração" (GARDINER, p. 7). Esta é a metafísica mais ousada: não apenas afirmar que Deus existe, mas que tudo o que existe é Deus se manifestando.
A vida pessoal de Hegel, no entanto, oferece um contraponto earthly fascinante à sua grandiosa abstração. Enquanto pregava a eticidade substantiva da família burguesa em sua Filosofia do Direito, o próprio Hegel vivia uma contradição íntima. Durante seu período como preceptor em Jena, teve um filho ilegítimo, Ludwig Fischer (1807–1831), com sua senhoria, Christina Burkhardt. Ele reconheceu a paternidade e providenciou sustento financeiro, mas manteve o affair e a existência do filho longe dos holofotes de sua crescente carreira acadêmica. O filósofo do Espírito Absoluto, cujo sistema via a história como a realização da liberdade ética, era também um homem de sua época, sujeito a paixões e contingências que seu próprio sistema classificaria como "particulares" e "insignificantes" perante o marchar cósmico da Razão. Essa dissonância entre a vida e a obra não invalida seu sistema, mas humaniza o filósofo, lembrando-nos que até os construtores dos mais altos castelos conceituais têm pés de barro.
Por fim, é crucial entender que categorizar Hegel como "metafísico" é, em grande parte, uma leitura de historiadores – e não apenas de filósofos – que olham para seu sistema de fora. Esta é uma leitura necessariamente carregada de subjetividade, que busca contextualizar seu pensamento em sua época e desvendar suas intenções. Eles veem em Hegel um metafísico no sentido de que seu objeto de estudo (o Absoluto) e seu método (a especulação dialética) são radicalmente diferentes do empirismo e do criticismo kantiano. No entanto, esta é uma leitura que, ao enfatizar o caráter "metafísico", pode ofuscar o fato de que a metafísica de Hegel é de um tipo muito particular: é, essencialmente, uma inovação teológica disfarçada de sistema filosófico. Ela não é "livre de dogmas", como se esperaria de uma metafísica pura; pelo contrário, é profundamente dogmática ao postular, a priori, a racionalidade divina de todo o real. Portanto, chamar Hegel de metafísico é preciso, mas insuficiente. Ele foi o último grande metafísico, aquele que forjou os conceitos mais poderosos para tentar salvar Deus através da razão, criando uma teologia tão grandiosa que quase consegue fazer-nos esquecer que é, em sua essência, uma fé vestida de metafísica.
Todos os grandes pensadores que vão tratar de metafísica e transcendência, basta observar atentamente, fazem isso, essa manobra, esse malabarismo teórico, pegam a sua fé em Deus (ou em algo maior que não chamam de Deus), dentro do dogma religioso que professam, criam um mega sistema complexo para explicar o óbvio, a história , este mundo e outros mundos possíveis além e tudo o que puder ser explicado, e chamam isso de metafísica. Uns, como Hegel, disfarçam bem, outros como Comte não conseguem manter o disfarce por muito tempo e se atiram ao oceano da religiosidade radical disfarçada de metafísica.
No fundo, se observarmos à luz da psicanálise, o que esses caras fazem é achar uma maneira de continuar vivendo diante das agruras do mundo sobre suas vidas. Isto é, eles inventam uma ficção da realidade, uma desculpa, uma forma de aceitar a vida como ela é, e a vendem não como teoria apenas, mas como se fosse a verdade mais verdadeira de todas, e muita gente, ao longo do tempo, compra suas histórias por 'verdades absolutas' e desse ponto em diante cria-se uma infinidade de outras histórias. Tudo não passa de um delírio que ao se chocar contra a realidade, se desintegra.
E. E-Kan
REFERÊNCIAS
GARDINER, Patrick. Teorias da História. Tradução de Vítor Matos e Sá. 5.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, [s.d.].
PINKARD, Terry. Hegel: A Biography. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.
TAYLOR, Charles. Hegel. Cambridge: Cambridge University Press, 1975.
BEISER, Frederick C. Hegel. New York: Routledge, 2005.
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