Comte NÃO era metafísico, "mas" se tornou um...
"Mas", e tem muita coisa nesse mas...
Auguste Comte e a trajetória do Anti-Metafísico que se tornou Metafísico...
Auguste Comte (1798-1857) é incontestavelmente conhecido como o fundador do Positivismo, uma doutrina filosófica que tem como pilares centrais a rejeição da metafísica e a defesa intransigente da ciência como única forma válida de conhecimento. Sua famosa "lei dos três estados", formulada em sua obra fundamental, o Curso de Filosofia Positiva (1830-1842), postula que o espírito humano, assim como a própria história, evolui necessariamente por três estágios teóricos distintos: o estado teológico (ou fictício), o estado metafísico (ou abstrato) e, por fim, o estado positivo (ou científico).
No estado teológico, o homem explica os fenômenos através de vontades divinas e agentes sobrenaturais. O estado metafísico representa uma transição; é uma fase crítica em que "os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (isto é, abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo". Por fim, no ápice do desenvolvimento, o estado positivo vê o espírito humano "reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renunciando a procurar a origem e o destino do universo e a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para se dedicar unicamente à descoberta, pelo uso bem combinado do raciocínio e da observação, das suas leis efetivas" (COMTE, 1978, p. 10).
Desta forma, na origem de seu projeto intelectual, Comte posicionava-se de maneira explícita e veemente como um crítico da metafísica, caracterizando-a como um estágio intermediário, obsoleto e inferior que a humanidade deveria superar para alcançar a maturidade intelectual do estado positivo, onde apenas as relações entre fenômenos observáveis são válidas.
No entanto, a trajetória intelectual de Comte é marcada por uma profunda e fascinante contradição com a vida pessoal. Primeiro, ele se enrola com (segundo ele próprio em seu testamento) uma prostituta, Caroline Massini, com quem ficou quase 17 anos, numa loucura que quase o levou ao suicídio tocando fogo em quarto e quase pulando da ponte (PICKERING, 2006; BRITANNICA, 2025). Depois, ele se mete com uma mulher casada, Clotilde de Vaux, numa espécie de tara platônica levando Clotilde a ser a Musa Inspiradora da "Religião da Humanidade", expondo sua piração total no final de sua vida, (COMTE; VAUX, 1910; BOURDEAU, 2008). Tudo isso, ferveu os neurônios do juízo do Comte, e certamente, são coisas que influenciaram sua tomada de decisão ao transformar o Positivismo numa religião mais tarde. Também, essa vida conturbada, mostra que Comte também foi um 'um homem que era um campo de batalha', como Nietzsche, talvez.
Mas, voltemos a questão da metafísica em Comte, na segunda fase de sua obra, principalmente a partir do Système de Politique Positive (1851-1854), o fundador do positivismo, movido pela percepção de que a ciência pura era insuficiente para fundar a coesão social e fornecer uma base para a moralidade, engajou-se na construção da chamada "Religião da Humanidade".
Este novo sistema apresentava todos os elementos de uma doutrina metafísica que ele próprio havia anteriormente condenado. Comte instituiu um novo objeto de culto: o "Grande Ser", uma abstração personificada que representava a Humanidade coletiva, passada, presente e futura. Ele elaborou um complexo sistema ritualístico, um calendário positivista com santos leigos (cientistas e filósofos), dogmas de altruísmo universal e uma hierarquia sacerdotal. Como analisa Pickering (2009, p. 15), "Comte, em sua busca por uma base afetiva para a sociedade, acabou por criar uma nova teologia secular, na qual conceitos abstratos como 'Humanidade' ocuparam o lugar dos deuses que ele pretendia destronar".
O "Grande Ser" é, em sua essência, uma "verdadeira entidade" metafísica, uma força abstrata inerente aos seres humanos e concebida como capaz de guiar moralmente a sociedade – uma explicação que se afasta completamente da estrita observação dos fenômenos para mergulhar no reino da pura especulação abstrata.
Portanto, o fato de que Auguste Comte "não era metafísico, mas se tornou um", corroborado aqui, captura com precisão a dialética de seu pensamento.
Seu projeto inicial era fundamentalmente anti-metafísico, um esforço para erradicar as explicações baseadas em entidades ocultas e causas finais. Contudo, ao tentar resolver o problema da ordem moral e social sem recorrer à teologia tradicional, ele involuntariamente recriou um sistema que possuía a mesma estrutura lógica e os mesmos vícios do pensamento metafísico que ele buscara superar.
E outra: Comte não se 'tornou um metafísico' no sentido tradicional do termo, que discute o "Ser" ou a "Essência", mas tornou-se o arquiteto de uma metafísica positivista, um sistema dogmático baseado em fé em abstrações não observáveis.
E é por isso que, máxima data vênia, defendo a ideia de que Comte NÃO era Metafísico, mas apenas um cara que pirou o cabeção e criou uma fantasia pseudo-espiritualista-sociológica, uma seita para fugir dos seus problemas pessoais, criando uma coisa que nem Metafísica de verdade é.
Sim, alguns dirão que Comte criou 'uma nova Metafísica', mas eu direi, NÃO. Comte criou uma seita. Crença e fé são diferentes de Metafísica. Claro, nem toda crença e fé são crentelhices e seita. Mas, tem muitas seitas por aí que até chegam a parecer uma 'religião séria'.
E Comte contribuiu, sem querer até, ou [sem querer, querendo] para o surgimento de muitas seitas posteriormente que, tentam de maneira distorcida e sem nenhuma base racional ou científica, ou mesmo metodológica (a não ser distorcida) misturar religião (teologia), filosofia e ciência.
Enfim, o fato é que o pessoal de história tem uma visão de Metafísica totalmente diferente da nossa na Filosofia, misturam alhos com bugalhos e daí que surge a 'tese de que Comte era Metafísico', defendido por alguns historiadores. NÃO. Nunca foi e nunca será um Metafísico, pelo menos não para mim.
E. E-Kan
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Auguste Comte e as Mulheres que quase o deixaram Louco
Quando se fala em Auguste Comte (1798–1857), costuma-se lembrar do “pai do positivismo”, do lema ordem e progresso e do delírio megalomaníaco da Religião da Humanidade. Mas, por trás da fachada de filósofo sistemático, havia um homem permanentemente abalado pelas mulheres de sua vida. Não fossem elas, talvez Comte tivesse morrido apenas como um professor medíocre de matemática. Em vez disso, morreu um pensador entre a glória e a quase loucura.
A primeira dessas figuras foi Caroline Massin (1802–1877). Conhecida em 1822, tornou-se sua companheira em 1824 e, no ano seguinte, sua esposa. Ele tinha 27 anos, ela 22 — diferença pouca, mas suficiente para acirrar inseguranças. O casamento foi marcado por crises financeiras, ciúmes obsessivos e uma avalanche de brigas domésticas. No auge da confusão, Comte teve seu colapso nervoso em 1826, internado por Esquirol, e ainda tentou suicídio em 1827. Não à toa, Mary Pickering (2006) observa que o período conjugal com Caroline foi simultaneamente o mais turbulento e o mais produtivo: foi nesse fogo cruzado que ele escreveu o Cours de philosophie positive. A relação desmoronou de vez em 1842, mas a mágoa ficou tão entranhada que Comte não resistiu a atacar a reputação da ex-mulher até em testamento (PICKERING, 2006; BRITANNICA, 2025).
A segunda musa, bem mais doce e ao mesmo tempo devastadora, foi Clotilde de Vaux (1815–1846). Conhecida em 1844, Clotilde era 17 anos mais jovem que o filósofo: ele com 46, ela com 29. Casada com um marido ausente, católica fervorosa e rígida, manteve sempre uma barreira: o romance com Comte seria platônico. E foi exatamente isso que o enlouqueceu. Ele projetou nela o ideal do amor puro, a redentora de sua vida moral. A correspondência entre ambos, publicada após a morte, é prova de uma paixão não consumada que se transformou em dogma. Em 1846, quando Clotilde morreu de tuberculose, Comte transformou sua ausência em presença permanente: elevou-a a “santa” do calendário positivista e fundou a Religião da Humanidade, uma religião sem Deus, mas com Clotilde como musa eterna (COMTE; VAUX, 1910; BOURDEAU, 2008).
O balanço é cruel: Caroline o arrastou para o manicômio, mas também o obrigou a organizar sua obra monumental; Clotilde lhe negou o corpo, mas lhe ofereceu o combustível afetivo que desembocou na religiosidade positivista. Comte, obcecado por sistematizar o mundo, foi sistematicamente desmontado pelas mulheres. Talvez a frase de Buckle sobre ele caiba melhor aqui: “metade gênio, metade louco” — e boa parte dessa loucura teve nome e sobrenome femininos.
E. E-Kan
REFERÊNCIAS
COMTE, Auguste. Curso de Filosofia Positiva. In: COMTE. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).
GARDINER, Patrick. Teorias da História. Tradução de Vítor Matos e Sá. 5.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, [s.d.].
PICKERING, Mary. Auguste Comte: An Intellectual Biography. Volume III. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
______. Auguste Comte and the Religion of Humanity: The Post-theistic Program of French Social Theory. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.
BOURDEAU, Michel. Auguste Comte. In: ZALTA, Edward N. (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Metaphysics Research Lab, 2008 (ed. rev.). Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/comte/. Acesso em: 28 ago. 2025.
BRITANNICA. Auguste Comte. Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Auguste-Comte. Acesso em: 28 ago. 2025.
COMTE, Auguste; VAUX, Clotilde de. Confessions and Testament of Auguste Comte: and His Correspondence with Clotilde de Vaux. Manchester: H. Young & Sons, 1910. Disponível em: https://onlinebooks.library.upenn.edu/webbin/book/lookupid?key=ha001916375. Acesso em: 28 ago. 2025.
PICKERING, Mary. Auguste Comte: An Intellectual Biography. Cambridge: Cambridge University Press, 2006–2009. v. 1–3.
“Vaux, Clotilde de (1815–1846).” Encyclopedia.com. Disponível em: https://www.encyclopedia.com/women/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/vaux-clotilde-de-1815-1846. Acesso em: 28 ago. 2025.
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